Esses estranhos felinos domésticos




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Conheço várias pessoas que criam gatos, por outro lado, nunca me senti muito atraída por essa espécie doméstica, provavelmente porque meu pai costumava falar que são animais que se apegam ao lugar, e não às pessoas, e por este motivo, jamais criaria um. Cresci ouvindo isso, embora a minha avó paterna gostasse, e lembro até de um que ela criava que se chamava Mimi, nome o qual sendo eu ainda criança na época, achava engraçado. Nunca me certifiquei da veracidade desta teoria do meu pai, mas também nunca duvidei, e até conheci alguns casos que corroboraram a mesma.

Hoje continuo achando que não criaria um, mas tenho me admirado com a quantidade de pessoas que cada vez mais, têm enchido suas casas com inúmeros bichanos. Não sei se é porque eles se multiplicam rapidamente, ou porque elas realmente gostam de preencher seus lares ou suas vidas desta forma. Mas o que realmente tem me deixado cabreira, nessas situações, é que o apego dessas pessoas a esses bichos, as tem afastado das outras pessoas. A sensação que tenho é que começam a desenvolver um sentimento de que seus bichos possuem uma série de qualidades que as pessoas não têm, e muitas vezes, eles passam a ocupar o lugar de familiares, amigos ou outras lacunas. Pode até parecer meio exagerado, mas é o que tenho observado em alguns criadores.  Conheci uma senhora que declarou que estaria disposta a se separar do marido, caso ele não aceitasse mais a convivência com a sua imensa prole de felinos.

De fato, não sou contra aqueles que criam esses animaizinhos domésticos miadores, porém quando estes passam a ser os senhores das casas onde vivem, quando começam a ocupar todos os espaços físicos e humanos, coexistindo com hábitos antissociais de seus donos, acredito que algo muito errado paira no ar dessas residências.  Não sou especialista no assunto, mas posso dizer que, na maioria das casas de famílias, onde eles são bem mais numerosos que os humanos, os conflitos provocados por esta convivência, normalmente são frequentes e escondem problemas de cunho familiar não resolvidos.

O negócio é tão sério que um casal de amigos, depois que decidiu criar um casal de gatos, entrou de cabeça no mundo dos sites especializados sobre os bichanos, tornando-se assíduos frequentadores destes, e já tentaram até me convencer de que praticamente seus gatinhos são cães que miam. Brincadeiras à parte, este pensamento não é raro entre aqueles que criam esses felinos. Bom para os que vivem do mundo PET, afinal, quanto mais “cãezinhos miadores” forem assim tratados, mais movimentado será este mercado e menos solitários serão estes dedicados criadores.

Mas... mesmo com tudo isso, ainda desconfio que meu pai tinha razão. Afinal, quem diabos confia em um bicho que segundo algumas crenças, consegue ver gente que já morreu; segundo os supersticiosos, se for preto dá um azar danado; tem uns olhos que possuem um brilho estranho na escuridão; é um problema para os alérgicos e ainda há os que dizem que essas estranhas criaturas pressentem quando o dono vai morrer, e vão embora? Tem que gostar muito mesmo, e ter a mente aberta, porque pode ser uma fofura, uma gracinha, etc, etc, mas que tem má fama, isso tem.

Dezembro/2017

Trilhando de bike




Apesar de já ter feito várias viagens para cidades grandes, gosto muito de viagens ecológicas, pois estas nos proporcionam a possibilidade de várias atividades, que nos fazem sentir verdadeiramente conectados à natureza. Esta experiência de proximidade costuma trazer uma sensação de paz e harmonia, nada mais coerente, já que isso deveria ser uma constante na vida dos humanos, que nada mais são do que parte integrante deste ecossistema.

Mas das coisas que fazemos nas viagens ecológicas, uma das que mais gosto é fazer trilhas, e tive sorte de poder realizar várias. O melhor das trilhas, sempre é o objetivo final, ou seja, chegar a algum lugar ou ponto especial, que nos recompensará pelo esforço empreendido na jornada. Esses lugares geralmente nos presenteiam com alguma paisagem deslumbrante, capaz de saciar a nossa sede de conquista, afinal, chegar ao nosso objetivo nos leva a esta incrível sensação, como se desbravadores fôssemos.

Praticamente todas as trilhas que já fiz posso dizer que foram divertidas ou especiais, e por isso gosto de relembrar. Mais recentemente tive a oportunidade de fazer uma mista, ou seja, parte do trecho a pé e parte de bicicleta, o que foi inesperado e uma novidade rara. Inicialmente quando chegamos ao parque onde seria nossa caminhada, não imaginava que uma longa sessão de pedaladas me aguardava, então ao escolher o nosso objetivo, não havia outra alternativa para percorrer a nossa extensa trilha, a não ser pegar as bikes para começa a nossa aventura, porém, a primeira coisa que me veio à mente foi: será que vou conseguir? Lembrei que a minha última pedalada de verdade havia sido no início da minha adolescência e senti um frio na espinha, confesso que hesitei, mas não podia recuar, então segui em frente e fui para a escolha da bike. Para a minha surpresa, vi que é verdade mesmo que nunca desaprendemos como andar de bicicleta, só não atentei para o freio quase ABS do pneu da frente, e para o meu não alcance total do chão na hora da parada, e o resultado claro, foi uma bela queda depois das primeiras pedaladas, após uma freada brusca com o freio dianteiro. Mas, apesar do começo desastroso, conseguimos encontrar uma bike adequada para mim e partimos para conhecer mais uma bela cachoeira.

Iniciamos o trajeto por uma estrada de areia hora firme, hora fofa, hora plana, hora com pequenas subidas, muito empolgados até os primeiros quilômetros, quando os movimentos foram se tornando cada vez mais exaustivos e a coisa foi ficando escura. Não pude conter o meu quase desespero ao encontrar um casal após vencidos os primeiros 4 Km, e descobrir que estávamos apenas na metade do caminho. Mas Deus ajuda a quem madruga, e resolvemos ignorar nosso cansaço e a distância, ganhando assim um ânimo de bônus, até finalmente chegarmos ao ponto em que era o fim da linha para as bicicletas, e o início da trilha a pé. Neste momento, cruzamos com alguns andarilhos que voltavam e outros que iam, e seguiram próximos a nós, pelo menos não estávamos sozinhos. Me senti até aliviada pela diminuição do esforço, mas também comecei a descobrir que sentar novamente na cela estreita para fazer o caminho de volta seria tarefa um tanto quanto desafiante, considerando que os músculos da região glútea teimavam em nos lembrar de sua dolorida presença a cada passada. Após algumas subidas, travessia de riacho e pedras, atingimos o nosso objetivo: uma bela cachoeira de águas geladíssimas, formando um lago de águas límpidas e convidativo, porém inviável para os nossos sentidos, nada acostumados a temperaturas bastante invernosas, restando-nos a contemplação e o registro em fotos de uma recompensante paisagem, caprichosamente criada pela natureza. 

Hora do retorno após um breve descanso, tive a surpresa de verificar que andamos 20 minutos até o ponto em que deixamos as bikes. E lá fomos nós, desta vez “voando”, pois tivemos a alegria de descobrir que a maior parte do caminho era descendo, e era só pedalar um tempinho e soltar os pés, que íamos “surfando” por um bom tempo, só curtindo o vento frio no rosto. De tão excitante, não dava pra conter a empolgação, e rapidamente atingimos nosso ponto de chegada. Ufa! Sobrevivi, e bravamente! apesar das décadas sem montar neste veículo tão divertido, que mesmo sendo utilizado por pessoas de todas as idades, é a cara da nossa infância. E agora, contraditoriamente, não posso deixar de dizer que, mesmo tendo sido uma exaustiva experiência, fiquei com aquele gostinho de “quero mais”, assim como outrora, em velhas brincadeiras na infância.

Dezembro/2017