Sincronia


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Gosto muito dos exercícios do pilates, dentre outras coisas, porque executamos movimentos que a primeira vista parecem impossíveis, porém, depois que conseguimos executá-los, ficamos com aquela sensação de “Eu também posso fazer isso!”. Por outro lado, tem aqueles que não são muito do meu agrado particular, principalmente quando envolve equilíbrio, que não é o meu forte.  Um dia, enquanto fazia um desses exercícios, onde é necessário realizar dois movimentos diferentes simultaneamente e estes precisavam ser executados em sincronia, pois de outra forma eu me desequilibraria e este não seria executado corretamente, ou simplesmente não seria executado, comecei a pensar o quanto de parecido era aquele movimento com alguns momentos da nossa vida. Percebi que era fundamental estar concentrada, caso contrário, bastaria um instante de distração para que os movimentos ficassem fora de sincronia, e aí só recomeçando para que fosse possível completar a sequência com sucesso.

Se observarmos o rumo de nossas vidas podemos perceber o quão semelhantes são os passos e as direções tomadas por nós e os exercícios sincronizados. Se não prestarmos atenção ao mundo que nos cerca e as nossas próprias atitudes, nos descuidamos de nós mesmos e perdemos a direção.  Basta um pouco de descuido para nos enveredarmos por caminhos onde muitas vezes nem sabemos porque seguimos, é quando somos levados pelas circunstâncias, ao invés de termos escolhido nosso próprio rumo, é quando nos desconcentramos dos nossos objetivos e perdemos o foco, seguindo distraídos pela vida.

Enquanto executava os movimentos, vez em quando me desconcentrava e logo me desequilibrava, e aí percebia que não adiantava tentar realizar a coisa de forma automática, como geralmente fazemos quando estamos nos exercitando, ou seja, aprendendo como se faz e repetindo. Saber como executar não era tudo, tão importante quanto o como, era o quando. E assim também é a nossa vida, em dados momentos sabemos como devemos agir, mas não sabemos quando, ou perdemos aquele tempo de fazer, pois muitas vezes os obstáculos e distrações nos desviam da nossa caminhada, dos nossos objetivos.

Isso costuma acontecer, por exemplo, quando a impetuosidade da juventude leva os jovens a desistir das coisas de que gostam, por paixões arrebatadoras ou por aventuras atraentes, aliadas ao prazer momentâneo. Este momento de embevecimento é o momento em que se desconcentra de si mesmo e se deixa levar por um movimento automático pelo que seduz. Quando esses movimentos estão em sincronia com os nossos objetivos, eles nos fazem vencedores, quando não, faz-nos perder o trem da nossa própria história, onde só é possível a vitória quando paramos, traçamos novos objetivos e sincronizamos estes com nossa viagem de vida. E isto significa parar e recomeçar o exercício, executando-o de forma sincronizada e sem se distrair até completar a sequência.

Nossos velhos ídolos e seus protestos sempre atuais

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Pra não dizer que não vi ninguém falando sobre o que poderia acontecer com o nosso país, caso continuássemos simplesmente a tratar nossas questões, como quem tenta comandar um barco à deriva, lembro de uma referência feita pelo meu professor de Filosofia no tempo de Faculdade, o qual imaginava que em algum momento os políticos iriam ser pegos por seus crimes e iriam tentar fugir. E ele afirmava com convicção, que quando isso acontecesse, o mais importante seria ficar de olho nos Portos e Aeroportos, por onde eles tentariam escapar. Não posso deixar de dizer que de certa forma ele acertou, porque pegos já foram, só faltam pagar o que devem ao país.

Mas, falando das músicas de protesto, acredito que muitos lembram das referências de alguns sucessos dos anos 80, como “o caso Morel, o crime da mala, Coroa Brastel...”; as músicas do saudoso Cazuza: “Brasil, mostra a tua cara...”, “meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder, ideologia, eu quero uma pra viver”; “declare guerra a quem finge te amar” e outras mais. Os Paralamas com sua “arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê”, os Titãs com sua “desordem”, “Comida”, e outras. E o pior é pensar que lá nos idos de 70, Chico Buarque já cantava em “Meu Caro amigo”, “a coisa aqui tá preta, muita mutreta pra levar a situação...”. E por aí vai. Mas o que realmente estarrece é a atualidade dessas músicas. Parece que paramos no tempo, que não evoluímos. Em quase 40 anos de democracia, crescemos muito pouco politicamente, moralmente e socialmente, e ainda nos lamentamos pelos mesmos problemas, pelas mesmas questões e votamos nos mesmos políticos e ainda somos enganados por estes mesmos, que continuam trabalhando em prol de si mesmos, subtraindo o nosso país, sem pagar por isso, e aí Lobão já cantava “quem é que vai pagar por isso?...” .

Então hoje nossos artistas podem cantar as mesmas músicas, porque pra desespero nosso, o contexto as valida e as mantêm atuais. Mas ainda assim, precisamos de novas vozes que cantem a urgência e a necessidade de nos renovarmos, de nos reinventarmos, porque a nossa crise moral é maior que o nosso território, e tem nos puxado para baixo numa rapidez, onde o mal globalizou-se, o errado virou o certo e estamos à beira de perder o respeito internacional e ver nossas virtudes serem suplantadas por tantos escândalos, desmandos e comportamento imoral dos que dirigem o destino do nosso país nas esferas pública e privada. Quem cantará por nós? Quem proclamará as nossas virtudes? Quem invocará a justiça por nós? Onde estão os nossos ídolos a nos representar? Quando vamos poder finalmente dizer aos nossos filhos que adorávamos as antigas músicas de protesto, mas que suas letras fizeram parte de um passado já superado?. Então parafraseando nosso poeta maior, o que mais posso dizer, senão: “Meus caros amigos me perdoem por favor”, mas a coisa aqui continua preta.